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O que o Brasil precisa fazer para se tornar um país desenvolvido?

Cesar Zanis

Cesar Zanis

Arquiteto de Software & Fractional CTO

14 de out. de 2026
11 min de leitura
Ilustração conceitual reunindo natureza, agricultura, mineração, infraestrutura, indústria e cidades brasileiras.

O Brasil tem condições de se tornar um país desenvolvido, mas precisa superar um problema que vai além de governos, impostos ou dívida pública: temos uma economia enorme e ainda produzimos relativamente pouca riqueza por habitante.

O país reúne vantagens importantes: recursos minerais, petróleo, terras agricultáveis, água, energia, mercado consumidor, capacidade agroindustrial e uma posição geográfica favorável. Essas vantagens, porém, não se transformam automaticamente em prosperidade. Países com poucos recursos naturais, como Japão e Coreia do Sul, conseguiram se desenvolver investindo em produtividade, tecnologia, educação, infraestrutura e instituições.

Minha proposta para esta conversa é olhar para os problemas, as escolhas e os resultados que precisamos perseguir no horizonte de 2027 a 2050. Sair da polarização não significa evitar divergências. Significa discutir uma agenda de crescimento com critérios, reconhecer os custos de cada escolha e pensar além de um mandato.

1. O diagnóstico: o problema central é a produtividade

O PIB brasileiro somou R$ 12,7 trilhões em 2025, com crescimento real de 2,3%. O PIB por habitante ficou em R$ 59.687,49 e a taxa de investimento foi de 16,8% do PIB. São indicadores complementares: o primeiro mede a produção total; os demais ajudam a observar a renda média e a capacidade de expansão. Fonte: IBGE, Contas Nacionais de 2025.

Pelo método Atlas do Banco Mundial, a Renda Nacional Bruta (RNB) per capita do Brasil ficou em US$ 10.550 em 2025, mantendo o país no grupo de renda média-alta. Na classificação do ano fiscal de 2027, a linha de alta renda começa em US$ 14.375. Fonte: Banco Mundial, WDI e classificação de renda FY2027.

Nas contas públicas, a dívida bruta do governo geral atingiu 82,9% do PIB em agosto de 2026 (cerca de R$ 11,1 trilhões) na metodologia do Banco Central. No conceito internacional do FMI, que inclui títulos do governo na carteira do Banco Central, a dívida bruta equivale a 94,5% do PIB. Os juros nominais do setor público consolidado somaram R$ 1,184 trilhão nos 12 meses até agosto de 2026, equivalentes a 8,86% do PIB. Fonte: Banco Central, Estatísticas Fiscais de 30/09/2026.

Já a estimativa preliminar do Tesouro Nacional para a carga tributária bruta do governo geral em 2025 foi de 32,40% do PIB. Fonte: Tesouro Nacional.

IndicadorDado de referênciaLeitura econômica
PIB do Brasil (2025)R$ 12,7 trilhões (+2,3%)Economia grande, mas crescimento moderado
PIB per capita (2025)R$ 59.687,49Produção por habitante ainda limitada
RNB per capita Atlas (2025)US$ 10.550Abaixo da linha de alta renda (US$ 14.375)
Taxa de investimento (2025)16,8% do PIBBaixa para sustentar crescimento acelerado
Dívida bruta (ago/2026)82,9% do PIB (BCB) / 94,5% (FMI)Pressiona juros e reduz espaço para investir
Juros nominais em 12 mesesR$ 1,184 trilhão (8,86% do PIB)Custo elevado de rolagem da dívida pública
Carga tributária bruta (2025)32,40% do PIBPróxima da média da OCDE (34,1%), com retorno desigual

Esses números mostram que o desafio brasileiro exige atuar ao mesmo tempo na sustentabilidade das contas públicas, na capacidade de investir e na produtividade do trabalho.

2. Equilíbrio fiscal: recuperar a capacidade de investir

A dívida pública não é um problema apenas pelo tamanho, mas pelo custo que impõe a toda a economia. Quando o Estado gasta quase 9% do PIB por ano com juros nominais, sobra menos espaço para investimento e o crédito fica mais caro para quem produz.

Não vejo solução suficiente em cortar qualquer despesa de forma linear ou em aumentar impostos sobre quem já trabalha e empreende. Na consulta do Artigo IV de julho de 2026, o FMI estimou que colocar a dívida brasileira em trajetória firme de queda exigiria elevar gradualmente o resultado primário para cerca de 1,5% do PIB até 2029 e 2,5% do PIB até 2031, combinando melhor eficiência do gasto e preservação de despesas sociais focalizadas. Fonte: FMI, consulta de julho de 2026.

Uma agenda fiscal responsável inclui:

  • Revisar despesas obrigatórias e mecanismos automáticos de indexação, com regras de transição previsíveis.
  • Avaliar subsídios, benefícios tributários e renúncias fiscais com metas claras de retorno socioeconômico.
  • Melhorar a qualidade do gasto público por meio de avaliação periódica de políticas e compras governamentais mais eficientes.
  • Reduzir exceções às regras fiscais e dar transparência plurianual ao orçamento.
  • Evitar transformar receitas extraordinárias, como dividendos e royalties de petróleo, em despesas permanentes sem fonte sustentável.

Uma trajetória fiscal mais confiável ajuda a reduzir o prêmio de risco e o custo de financiamento, permitindo que o capital migre da rolagem da dívida para o investimento produtivo.

3. Produtividade e ambiente de negócios

O centro econômico da transformação brasileira está em aumentar o valor gerado por trabalhador.

Imagine duas fábricas com trabalhadores igualmente dedicados. Na primeira, a energia oscila, o frete demora, o financiamento de máquinas é proibitivo e o departamento fiscal gasta milhares de horas interpretando regras. Na segunda, a logística é previsível, o crédito de longo prazo funciona e a tributação é simples. A segunda fábrica produz muito mais por hora trabalhada.

A nota da OCDE sobre o Brasil em 2026 destaca barreiras regulatórias, baixa concorrência em setores-chave, gargalos de infraestrutura e lacunas educacionais como entraves diretos ao crescimento. Fonte: OCDE, Foundations for Growth and Competitiveness 2026.

Para destravar a produtividade e facilitar a vida de quem empreende, precisamos:

  • Concluir com disciplina a transição da reforma da tributação sobre o consumo (prevista até 2033), evitando multiplicar regimes especiais que recriem complexidade.
  • Simplificar abertura, licenciamento e fechamento de empresas, reduzindo o custo burocrático para pequenos e médios negócios.
  • Aumentar a segurança jurídica e reduzir o contencioso tributário, trabalhista e regulatório.
  • Ampliar a concorrência, a abertura comercial gradual e o acesso a máquinas, software e tecnologia.
  • Fortalecer o mercado de capitais e o crédito de longo prazo para investimentos produtivos.

4. Transformar vantagens naturais em valor agregado

O Brasil já construiu excelência em setores como o agronegócio tropical, a exploração em águas profundas e a geração elétrica limpa. Em 2025, as fontes renováveis responderam por 86,8% da matriz elétrica brasileira (conceito distinto da matriz energética total, que também inclui combustíveis de transporte e indústria). Fonte: EPE, Balanço Energético Nacional 2026, ano-base 2025.

O próximo passo é usar essas vantagens naturais como plataforma para cadeias de maior valor tecnológico:

Vantagem natural brasileiraEstratégia de valor agregado
Agronegócio e alimentosBiotecnologia, sementes, fertilizantes, máquinas agrícolas, alimentos processados e marcas globais
Minerais estratégicos e petróleoRefino eficiente, petroquímica, materiais avançados, engenharia e cadeia de baterias
Matriz elétrica 86,8% renovávelData centers, indústria eletrointensiva, hidrogênio de baixo carbono e manufatura limpa
BiodiversidadeFármacos, cosméticos, bioeconomia e pesquisa aplicada
Grande mercado internoServiços digitais, software, inteligência artificial aplicada à produção e finanças

Essa transformação não se faz proibindo exportações nem criando reservas de mercado ineficientes. Faz-se com infraestrutura competitiva, segurança regulatória, qualificação técnica e parcerias entre universidades e empresas.

5. Educação, ciência e formação técnica como política econômica

No PISA 2025, apenas 28% dos estudantes brasileiros de 15 anos alcançaram ao menos o nível 2 em matemática, considerado o patamar básico de proficiência, diante de 65% na média da OCDE. Fonte: OCDE, nota sobre o Brasil no PISA 2025.

Nenhum país sustenta salários altos e indústria sofisticada sem uma base sólida de leitura, matemática, ciências e formação técnica. Educação precisa ser tratada como política econômica de Estado:

  • Priorizar primeira infância, alfabetização na idade certa e domínio de matemática e leitura no ensino fundamental.
  • Valorizar a carreira docente com formação prática, mentoria e metas claras de aprendizagem por escola e município.
  • Expandir o ensino médio técnico e profissionalizante conectado às vocações produtivas de cada região.
  • Aproximar universidades, centros de pesquisa e empresas para transformar ciência em patentes, produtos e ganhos de produtividade.

O critério de sucesso não pode ser apenas o percentual do orçamento gasto, mas sim o quanto os alunos efetivamente aprendem.

6. Infraestrutura, saneamento, segurança e instituições

Estabilidade macroeconômica não basta quando o custo logístico, a falta de saneamento e a insegurança travam o cotidiano das famílias e das empresas.

De acordo com o SINISA (ano-base 2024, publicado pelo Ministério das Cidades em 2025), o atendimento de água tratada chega a 83,9% da população (ou 92,9% considerando soluções alternativas), enquanto o atendimento com rede coletora de esgoto alcança 60,9% e apenas 52,8% de todo o esgoto gerado no país é tratado. Fonte: Ministério das Cidades, SINISA 2024.

Na segurança pública, o Atlas da Violência 2026 (IPEA/FBSP) registrou taxa de 20,1 homicídios por 100 mil habitantes em 2024, o menor índice da série recente, mas ainda muito acima do padrão de países desenvolvidos. Fonte: IPEA, Atlas da Violência 2026.

Para mudar esse quadro na prática:

  • Elevar gradualmente a taxa de investimento dos atuais 16,8% do PIB para a faixa de 22% a 25% do PIB na próxima década, combinando concessões bem modeladas, capital privado e investimento público em projetos de alto retorno.
  • Expandir ferrovias, portos, rodovias, armazenagem agrícola, transmissão elétrica e conectividade digital.
  • Cumprir as metas de universalização de água potável e coleta e tratamento de esgoto, reduzindo doenças e elevando a produtividade escolar e profissional.
  • Combater o crime organizado com inteligência financeira, integração entre forças policiais, controle territorial e justiça célere.

7. Em quanto tempo o Brasil pode chegar lá?

Não existe data garantida para um país se tornar desenvolvido. O ritmo depende da qualidade e da continuidade das escolhas públicas e privadas ao longo de vários governos.

Como cenário ilustrativo de planejamento, podemos dividir essa caminhada em três horizontes:

HorizonteObjetivo centralEntregas esperadas
Até 2030Estabilizar a economiaControlar a trajetória da dívida, reduzir o custo de financiamento e avançar nas reformas de produtividade e tributação
Até 2035Acelerar o crescimentoElevar a taxa de investimento acima de 20% do PIB, expandir infraestrutura, exportações e qualificação técnica
Entre 2045 e 2055Consolidar padrão desenvolvidoAlcançar patamar de alta renda com educação básica forte, saneamento universalizado e segurança pública efetiva

Conclusão: por onde começar

Minha prioridade seria combinar quatro frentes simultâneas: contas públicas sustentáveis, produtividade, infraestrutura e educação. Avançar em apenas uma enquanto as demais ficam para trás não produzirá o salto que o país precisa.

O Brasil não precisa escolher entre reconhecer suas riquezas e enfrentar seus problemas estruturais. Precisa usar a força dos seus recursos para financiar e construir um país mais produtivo, justo e seguro.

Um país desenvolvido não é apenas um país rico em recursos naturais: é um país que transforma seu potencial em renda, oportunidades e qualidade de vida para a população.

Na sua opinião, por onde o Brasil deveria começar?


Fontes e referências oficiais

  1. IBGE - Contas Nacionais Trimestrais (4º trimestre de 2025): PIB de R$ 12,7 trilhões, crescimento de 2,3%, PIB per capita de R$ 59.687,49 e taxa de investimento de 16,8% do PIB.
  2. Banco Central do Brasil - Estatísticas Fiscais (publicadas em 30/09/2026, dados de agosto de 2026): Dívida Bruta do Governo Geral em 82,9% do PIB (R$ 11,1 trilhões) e juros nominais acumulados em 12 meses de R$ 1.184 bilhões (8,86% do PIB).
  3. Tesouro Nacional - Estimativa preliminar da Carga Tributária Bruta do Governo Geral em 2025: 32,40% do PIB (OCDE em 2024: 34,1% do PIB).
  4. Fundo Monetário Internacional (FMI) - 2026 Article IV Consultation with Brazil (julho de 2026, Country Report No. 26/197): dívida bruta no conceito do FMI em 94,5% do PIB e cenário de superávit primário de 1,5% do PIB até 2029 e 2,5% até 2031.
  5. Banco Mundial - World Development Indicators e classificação FY2027: RNB per capita (método Atlas) do Brasil em US$ 10.550 em 2025; linha de alta renda acima de US$ 14.375.
  6. OCDE - PISA 2025 Country Note: Brazil (setembro de 2026) e Foundations for Growth and Competitiveness 2026.
  7. Empresa de Pesquisa Energética (EPE) - Relatório Síntese do Balanço Energético Nacional 2026 (ano-base 2025): 86,8% de fontes renováveis na matriz elétrica brasileira.
  8. Ministério das Cidades / SINISA - Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (ano-base 2024, publicado em 2025).
  9. IPEA / Fórum Brasileiro de Segurança Pública - Atlas da Violência 2026 (dados de 2024).
Czanix / Economia e contas públicas

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Reflexões sobre as escolhas que constroem nosso futuro.

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