O Brasil tem condições de se tornar um país desenvolvido, mas precisa superar um problema que vai além de governos, impostos ou dívida pública: temos uma economia enorme e ainda produzimos relativamente pouca riqueza por habitante.
O país reúne vantagens importantes: recursos minerais, petróleo, terras agricultáveis, água, energia, mercado consumidor, capacidade agroindustrial e uma posição geográfica favorável. Essas vantagens, porém, não se transformam automaticamente em prosperidade. Países com poucos recursos naturais, como Japão e Coreia do Sul, conseguiram se desenvolver investindo em produtividade, tecnologia, educação, infraestrutura e instituições.
Minha proposta para esta conversa é olhar para os problemas, as escolhas e os resultados que precisamos perseguir no horizonte de 2027 a 2050. Sair da polarização não significa evitar divergências. Significa discutir uma agenda de crescimento com critérios, reconhecer os custos de cada escolha e pensar além de um mandato.
1. O diagnóstico: o problema central é a produtividade
O PIB brasileiro somou R$ 12,7 trilhões em 2025, com crescimento real de 2,3%. O PIB por habitante ficou em R$ 59.687,49 e a taxa de investimento foi de 16,8% do PIB. São indicadores complementares: o primeiro mede a produção total; os demais ajudam a observar a renda média e a capacidade de expansão. Fonte: IBGE, Contas Nacionais de 2025.
Pelo método Atlas do Banco Mundial, a Renda Nacional Bruta (RNB) per capita do Brasil ficou em US$ 10.550 em 2025, mantendo o país no grupo de renda média-alta. Na classificação do ano fiscal de 2027, a linha de alta renda começa em US$ 14.375. Fonte: Banco Mundial, WDI e classificação de renda FY2027.
Nas contas públicas, a dívida bruta do governo geral atingiu 82,9% do PIB em agosto de 2026 (cerca de R$ 11,1 trilhões) na metodologia do Banco Central. No conceito internacional do FMI, que inclui títulos do governo na carteira do Banco Central, a dívida bruta equivale a 94,5% do PIB. Os juros nominais do setor público consolidado somaram R$ 1,184 trilhão nos 12 meses até agosto de 2026, equivalentes a 8,86% do PIB. Fonte: Banco Central, Estatísticas Fiscais de 30/09/2026.
Já a estimativa preliminar do Tesouro Nacional para a carga tributária bruta do governo geral em 2025 foi de 32,40% do PIB. Fonte: Tesouro Nacional.
| Indicador | Dado de referência | Leitura econômica |
|---|---|---|
| PIB do Brasil (2025) | R$ 12,7 trilhões (+2,3%) | Economia grande, mas crescimento moderado |
| PIB per capita (2025) | R$ 59.687,49 | Produção por habitante ainda limitada |
| RNB per capita Atlas (2025) | US$ 10.550 | Abaixo da linha de alta renda (US$ 14.375) |
| Taxa de investimento (2025) | 16,8% do PIB | Baixa para sustentar crescimento acelerado |
| Dívida bruta (ago/2026) | 82,9% do PIB (BCB) / 94,5% (FMI) | Pressiona juros e reduz espaço para investir |
| Juros nominais em 12 meses | R$ 1,184 trilhão (8,86% do PIB) | Custo elevado de rolagem da dívida pública |
| Carga tributária bruta (2025) | 32,40% do PIB | Próxima da média da OCDE (34,1%), com retorno desigual |
Esses números mostram que o desafio brasileiro exige atuar ao mesmo tempo na sustentabilidade das contas públicas, na capacidade de investir e na produtividade do trabalho.
2. Equilíbrio fiscal: recuperar a capacidade de investir
A dívida pública não é um problema apenas pelo tamanho, mas pelo custo que impõe a toda a economia. Quando o Estado gasta quase 9% do PIB por ano com juros nominais, sobra menos espaço para investimento e o crédito fica mais caro para quem produz.
Não vejo solução suficiente em cortar qualquer despesa de forma linear ou em aumentar impostos sobre quem já trabalha e empreende. Na consulta do Artigo IV de julho de 2026, o FMI estimou que colocar a dívida brasileira em trajetória firme de queda exigiria elevar gradualmente o resultado primário para cerca de 1,5% do PIB até 2029 e 2,5% do PIB até 2031, combinando melhor eficiência do gasto e preservação de despesas sociais focalizadas. Fonte: FMI, consulta de julho de 2026.
Uma agenda fiscal responsável inclui:
- Revisar despesas obrigatórias e mecanismos automáticos de indexação, com regras de transição previsíveis.
- Avaliar subsídios, benefícios tributários e renúncias fiscais com metas claras de retorno socioeconômico.
- Melhorar a qualidade do gasto público por meio de avaliação periódica de políticas e compras governamentais mais eficientes.
- Reduzir exceções às regras fiscais e dar transparência plurianual ao orçamento.
- Evitar transformar receitas extraordinárias, como dividendos e royalties de petróleo, em despesas permanentes sem fonte sustentável.
Uma trajetória fiscal mais confiável ajuda a reduzir o prêmio de risco e o custo de financiamento, permitindo que o capital migre da rolagem da dívida para o investimento produtivo.
3. Produtividade e ambiente de negócios
O centro econômico da transformação brasileira está em aumentar o valor gerado por trabalhador.
Imagine duas fábricas com trabalhadores igualmente dedicados. Na primeira, a energia oscila, o frete demora, o financiamento de máquinas é proibitivo e o departamento fiscal gasta milhares de horas interpretando regras. Na segunda, a logística é previsível, o crédito de longo prazo funciona e a tributação é simples. A segunda fábrica produz muito mais por hora trabalhada.
A nota da OCDE sobre o Brasil em 2026 destaca barreiras regulatórias, baixa concorrência em setores-chave, gargalos de infraestrutura e lacunas educacionais como entraves diretos ao crescimento. Fonte: OCDE, Foundations for Growth and Competitiveness 2026.
Para destravar a produtividade e facilitar a vida de quem empreende, precisamos:
- Concluir com disciplina a transição da reforma da tributação sobre o consumo (prevista até 2033), evitando multiplicar regimes especiais que recriem complexidade.
- Simplificar abertura, licenciamento e fechamento de empresas, reduzindo o custo burocrático para pequenos e médios negócios.
- Aumentar a segurança jurídica e reduzir o contencioso tributário, trabalhista e regulatório.
- Ampliar a concorrência, a abertura comercial gradual e o acesso a máquinas, software e tecnologia.
- Fortalecer o mercado de capitais e o crédito de longo prazo para investimentos produtivos.
4. Transformar vantagens naturais em valor agregado
O Brasil já construiu excelência em setores como o agronegócio tropical, a exploração em águas profundas e a geração elétrica limpa. Em 2025, as fontes renováveis responderam por 86,8% da matriz elétrica brasileira (conceito distinto da matriz energética total, que também inclui combustíveis de transporte e indústria). Fonte: EPE, Balanço Energético Nacional 2026, ano-base 2025.
O próximo passo é usar essas vantagens naturais como plataforma para cadeias de maior valor tecnológico:
| Vantagem natural brasileira | Estratégia de valor agregado |
|---|---|
| Agronegócio e alimentos | Biotecnologia, sementes, fertilizantes, máquinas agrícolas, alimentos processados e marcas globais |
| Minerais estratégicos e petróleo | Refino eficiente, petroquímica, materiais avançados, engenharia e cadeia de baterias |
| Matriz elétrica 86,8% renovável | Data centers, indústria eletrointensiva, hidrogênio de baixo carbono e manufatura limpa |
| Biodiversidade | Fármacos, cosméticos, bioeconomia e pesquisa aplicada |
| Grande mercado interno | Serviços digitais, software, inteligência artificial aplicada à produção e finanças |
Essa transformação não se faz proibindo exportações nem criando reservas de mercado ineficientes. Faz-se com infraestrutura competitiva, segurança regulatória, qualificação técnica e parcerias entre universidades e empresas.
5. Educação, ciência e formação técnica como política econômica
No PISA 2025, apenas 28% dos estudantes brasileiros de 15 anos alcançaram ao menos o nível 2 em matemática, considerado o patamar básico de proficiência, diante de 65% na média da OCDE. Fonte: OCDE, nota sobre o Brasil no PISA 2025.
Nenhum país sustenta salários altos e indústria sofisticada sem uma base sólida de leitura, matemática, ciências e formação técnica. Educação precisa ser tratada como política econômica de Estado:
- Priorizar primeira infância, alfabetização na idade certa e domínio de matemática e leitura no ensino fundamental.
- Valorizar a carreira docente com formação prática, mentoria e metas claras de aprendizagem por escola e município.
- Expandir o ensino médio técnico e profissionalizante conectado às vocações produtivas de cada região.
- Aproximar universidades, centros de pesquisa e empresas para transformar ciência em patentes, produtos e ganhos de produtividade.
O critério de sucesso não pode ser apenas o percentual do orçamento gasto, mas sim o quanto os alunos efetivamente aprendem.
6. Infraestrutura, saneamento, segurança e instituições
Estabilidade macroeconômica não basta quando o custo logístico, a falta de saneamento e a insegurança travam o cotidiano das famílias e das empresas.
De acordo com o SINISA (ano-base 2024, publicado pelo Ministério das Cidades em 2025), o atendimento de água tratada chega a 83,9% da população (ou 92,9% considerando soluções alternativas), enquanto o atendimento com rede coletora de esgoto alcança 60,9% e apenas 52,8% de todo o esgoto gerado no país é tratado. Fonte: Ministério das Cidades, SINISA 2024.
Na segurança pública, o Atlas da Violência 2026 (IPEA/FBSP) registrou taxa de 20,1 homicídios por 100 mil habitantes em 2024, o menor índice da série recente, mas ainda muito acima do padrão de países desenvolvidos. Fonte: IPEA, Atlas da Violência 2026.
Para mudar esse quadro na prática:
- Elevar gradualmente a taxa de investimento dos atuais 16,8% do PIB para a faixa de 22% a 25% do PIB na próxima década, combinando concessões bem modeladas, capital privado e investimento público em projetos de alto retorno.
- Expandir ferrovias, portos, rodovias, armazenagem agrícola, transmissão elétrica e conectividade digital.
- Cumprir as metas de universalização de água potável e coleta e tratamento de esgoto, reduzindo doenças e elevando a produtividade escolar e profissional.
- Combater o crime organizado com inteligência financeira, integração entre forças policiais, controle territorial e justiça célere.
7. Em quanto tempo o Brasil pode chegar lá?
Não existe data garantida para um país se tornar desenvolvido. O ritmo depende da qualidade e da continuidade das escolhas públicas e privadas ao longo de vários governos.
Como cenário ilustrativo de planejamento, podemos dividir essa caminhada em três horizontes:
| Horizonte | Objetivo central | Entregas esperadas |
|---|---|---|
| Até 2030 | Estabilizar a economia | Controlar a trajetória da dívida, reduzir o custo de financiamento e avançar nas reformas de produtividade e tributação |
| Até 2035 | Acelerar o crescimento | Elevar a taxa de investimento acima de 20% do PIB, expandir infraestrutura, exportações e qualificação técnica |
| Entre 2045 e 2055 | Consolidar padrão desenvolvido | Alcançar patamar de alta renda com educação básica forte, saneamento universalizado e segurança pública efetiva |
Conclusão: por onde começar
Minha prioridade seria combinar quatro frentes simultâneas: contas públicas sustentáveis, produtividade, infraestrutura e educação. Avançar em apenas uma enquanto as demais ficam para trás não produzirá o salto que o país precisa.
O Brasil não precisa escolher entre reconhecer suas riquezas e enfrentar seus problemas estruturais. Precisa usar a força dos seus recursos para financiar e construir um país mais produtivo, justo e seguro.
Um país desenvolvido não é apenas um país rico em recursos naturais: é um país que transforma seu potencial em renda, oportunidades e qualidade de vida para a população.
Na sua opinião, por onde o Brasil deveria começar?
Fontes e referências oficiais
- IBGE - Contas Nacionais Trimestrais (4º trimestre de 2025): PIB de R$ 12,7 trilhões, crescimento de 2,3%, PIB per capita de R$ 59.687,49 e taxa de investimento de 16,8% do PIB.
- Banco Central do Brasil - Estatísticas Fiscais (publicadas em 30/09/2026, dados de agosto de 2026): Dívida Bruta do Governo Geral em 82,9% do PIB (R$ 11,1 trilhões) e juros nominais acumulados em 12 meses de R$ 1.184 bilhões (8,86% do PIB).
- Tesouro Nacional - Estimativa preliminar da Carga Tributária Bruta do Governo Geral em 2025: 32,40% do PIB (OCDE em 2024: 34,1% do PIB).
- Fundo Monetário Internacional (FMI) - 2026 Article IV Consultation with Brazil (julho de 2026, Country Report No. 26/197): dívida bruta no conceito do FMI em 94,5% do PIB e cenário de superávit primário de 1,5% do PIB até 2029 e 2,5% até 2031.
- Banco Mundial - World Development Indicators e classificação FY2027: RNB per capita (método Atlas) do Brasil em US$ 10.550 em 2025; linha de alta renda acima de US$ 14.375.
- OCDE - PISA 2025 Country Note: Brazil (setembro de 2026) e Foundations for Growth and Competitiveness 2026.
- Empresa de Pesquisa Energética (EPE) - Relatório Síntese do Balanço Energético Nacional 2026 (ano-base 2025): 86,8% de fontes renováveis na matriz elétrica brasileira.
- Ministério das Cidades / SINISA - Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (ano-base 2024, publicado em 2025).
- IPEA / Fórum Brasileiro de Segurança Pública - Atlas da Violência 2026 (dados de 2024).
Uma boa conversa merece continuar.
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O potencial existe. O desafio é transformá-lo em prosperidade para a população, pensando além de um mandato.
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